02 abril, 2012

Água Mel, uma doce tradição em Mértola

Há muito que ansiava por uma reportagem sobre a ÁGUA MEL, há tempos "encomendada" ao meu amigo Osvaldo Silva.

Basicamente resultava do aproveitamento do mel residual que ficava nas ceras, após a prensagem dos favos dos cortiços. Esse doce tabu, não só produzido pelas abelhas mas por estas em parceria com o apicultor.

Não pode (ou não deve?) ser vendido, "Bruxelas" não acha muita graça ao facto, ainda por cima se trata de uma das últimas especialidades tradicionais que ainda não foi desvirtuada por essa tendência que tem extinguido o mundo rural e que começou há uns anos atrás com as maçãs normalizadas.

Aproveitem, é bastante doce e agradável, além disso estamos na Páscoa...

...

Após uma conversa com o amigo Pifano sobre este tema, foi por mãos à obra e tentar procurar entre os apicultores alguém que fizesse água-mel.
Felizmente aqui em Mértola ainda há quem se dedique a produzir tal especialidade, embora na sua maioria seja apenas para a família e amigos. Depois de uma conversa com um apicultor, foi só marcar um dia e o local.

A pequena aldeia da Morena no Concelho de Mértola foi o local onde se passou a acção.

No dia 8 de Junho pelas 10:30 da manhã cheguei ao local combinado (mas já um pouco atrasado, mas só no fim é que percebi porquê) e já lá estavam à minha espera o Sr. Avelino Rodrigues e a sua esposa, Dª Maria de Jesus.

Já há muitos anos que fazem água mel da mesma forma que aprenderam com os seus antepassados. A produção é apenas para consumo próprio e para dar a alguns familiares e amigos.

Há várias maneiras de se fazer água-mel, mas seguidamente vou descrever e ilustrar o que assisti, ajudei e no fim degustei.

Às 10:45 colocamos um recipiente com água ao lume.

Às 11 horas começamos por lavar com água a ferver a cera dos opérculos e de alguns quadros “velhos”, com pólen, ou melhor pão de abelha.

Depois retirou-se a cera e filtrou-se a água.

Terminada esta tarefa às 12 horas deixamos repousar essa água durante 6 horas. Deu-nos tempo para almoçar e ver depois ali próximo os famosos “zangarreiros”.

Zangarreiros… assunto deveras interessante e que, espero eu, seja tema de uma reportagem para breve no Montedomel.

Às 18:00 voltamos a filtrar a água e colocou-se ao lume até ferver. Assim que começou a ferver colocou-se em lume brando e retirou-se a espuma com um passador à medida que esta foi aparecendo.

Aproveitamos neste intervalo para fazer um lanche no final da tarde, pois ainda faltavam algumas horas.

Às 21:30 colocamos a casca de laranja de 3 laranjas, um pouco de ervas doces em grão, uma pitada de ervas doces moídas e um pau de canela dentro de uma bolsa, para não se espalhar pela água.
Continuou-se a retirar a espuma.

Às 23:00 começou a ficar em “ponto de pérola”, como a dona Maria lhe chamou.

O teste é efectuado com uma colher, deixando cair para um prato algumas gotas para verificarmos se está mais espessa e consistente do que a água.

Às 23:30 apagou-se o lume, voltamos a filtrar tudo para dentro de outra panela e deixamos repousar até à manhã seguinte.

Depois nessa manhã voltamos a retirar a espuma que se formou e podemos finalmente encher os frascos de água-mel.

Espero com este pequeno trabalho poder contribuir de alguma forma para que não se perca uma das nossas valiosas tradições.

Quero agradecer ao Sr. Avelino e à Dona Maria, pela sua disponibilidade em demonstrar como se faz água-mel, bem como ao Joaquim por ter colocado esta “batata-doce” nas minhas mãos.

Osvaldo Pantaleão Silva

24 comentários:

Pedro Azenha Rocha disse...

Osvaldo,
obrigado pela excelente fotoreportagem, o processo de fabrico de água mel ainda tem que se lhe diga....Aqui por casa usamos a água mel para curar tosses.
Cá ficamos à espera dos tais zangarreiros

Alien disse...

Olá Pedro e Osvaldo

Já sabem que conto convosco para a reportagem sobre os Zangarreiros, ando com saudades de ir a Mértola.
Pedro, vão parecer os nossos "trabalhos de mirmecologia" dos bons tempos de Faculdade de Ciências!!!

Abraços
Pifano

Anónimo disse...

Parabéns Osvaldo e Joaquim.
Não conhecia em pormenor todo o processamento. É muito moroso e trabalhoso.
Pelo que tenho ouvido , parece haver de algum tempo a esta parte algum movimento para a reabilitação da água-mel. Vamos ver se se obtêm resultados. Os "Bruxelos" que se amolem.
Um abraço,
Abelhasah.

Alien disse...

Olá Abelhasah

Segue-se agora o Hidromel, via Saga dos Abacaxis, e sou eu que estou em falta... ;)

Abraços
Pifano

João Martins disse...

olá a todos
Sou um apicultor iniciado aqui perto da serra da lousã e nunca tinha ouvido falar da água de mel, mas fiquei bastante satisfeito que estejam a tentar revitalizar a tradição.Excelente foto reportagem..

Cumprimentos
João Martins

Alien disse...

Só para aguçar ainda mais a curiosidade,

...como quem não tem cão caça com gato, quem não tem abelhas faz mel com Zangarreiros e ou Zangarrinhas.
Um amigo de Mértola também me falou nestas últimas.
E isto não tem nada a ver com o 1 de Abril...

Pifano

Francisco disse...

Excelente receita e obrigado pela partilha.
É mais um produto para saborearmos num futuro jantar multisabores

Obrigado

Francisco Rogão

Anónimo disse...

Olá todos os amigos!
Gostei da reportagem e digo que esta tradição da água-mel, não é só do Alentejo. Aqui pelos " Algarves" também existe essa tradição nos abelheiros mais "usados"; aos novos terei o maior prazer em ensinar, pois há tradições que devem ser transmitidas de geração em geração.Experimentem a água-mel com um bom queijinho caseiro de cabra(cuidado com a Brucelose)e ou também com requeijão; é difícil para de "enfardar".
Eu também utilizo a água-mel em licores que faço para mim e para os amigos Mnham mnham ...
Um abraço.

José Chuymbinho

Ganhão disse...

Olá Amigos
Gostei bastante da reportagem, está muito boa. Eu e a minha esposa aprendemos a fazer a água mel no Alentejo (serras de Serpa), normalmente comercializamos nas feiras do mel. No forum de Sesimbra e Ourem vendi alguma e dai a provar a muitos camaradas e ensinando a fazer.
Na beira interior (Idanha-a-Nova) existe um pão produzido na região chamado Bica que se come com água mel.

José Ganhão
ganhao@netcabo.pt

Florbela disse...

olá, gostei muito! O meu pai é apicultor e há uns 2 / 3 anos comecei a fazer agua-mel. Os meus pais são de Serpa, mas nenhum deles sabia como se fazia extamente, então pelo telefone a minha mãe perguntou a um irmão e ela lá foi dizendo como se lembrava que era feita. Fico contente porque o aspecto das diferentes fases não diferem muiot do aspecto da minha agua-mel! hehehe Mas vou tomar nota e só colocar a casca de larnaja e as especiarias mais para o fim! É muito importante que estas receitas não se percam! Os senhores de Bruxelas...temos pena!
Parabéns a todos! pela agua-mel e pela reportagem!

Alien disse...

Olá Florbela

de facto "os srs de Bruxelas" têm muito que se lhes diga!!!

Obrigado pelo comentario

J Pifano

Belocas disse...

Este fim de semana ganhei um frasquinho de Água Mel, feito na zona de Alcoutim. Há muitos anos que não tenha esta sorte.
Não conhecia o processo de fabrico, mas lembro-me de a minha avó ter sempre em casa.
Felizmente ainda há quem se dedique as estas iguarias tradicionais. Obrigado por partilhar.
Um abraço


Pirikita disse...

É desta que experimento fazer! obrigada pelas dicas!

Ana Serrenho disse...

Eu cá vou experimentar. No que depender de mim não deixo a tradição morrer. No entanto acho que vou experimentar várias ervas e outros condimentos...

Saudações Apícolas

FDias disse...

Muitos parabéns pelo trabalho realizado no blog e neste post em concreto!
Isto é levantamento e registo, de património cultural imaterial. A minha área de estudo e trabalho. Foi por esta via e interesse, que despertei para a apicultura. Agora, também eu apicultor iniciado nas horas livres e a desvendar os segredos das abelhas. O meu avô paterno teve cortiços com abelhas para consumo caseiro. Por isso lembro-me de termos favos, mel e água-mel em casa. Pelo que tenho lido e conheço, esta tradição da água-mel é uma tradição do Sul (Alentejo e Algarve) e pelo menos na zona raiana da Andaluzia. Mas não sei bem até onde se estende. Em séculos de dificuldades estas gentes cedo aprenderam a explorar todos os recursos e aproveitar tudo, como na exploração do porco, também na apicultura tudo dá para aproveitar e da lavagem das ceras se produz esta magnifica iguaria que esteve quase a desaparecer. Felizmente, está a ressurgir e muito graças a pessoas como estes senhores que têm vindo a valorizar estas técnicas e estes produtos. Afortunadamente, o pessoal mais novo começa a não ter vergonha de trabalhos onde é necessário esforço físico e sujar o fato. O mundo rural começa a assumir outro estatuto social. Afinal quem alimenta as cidades?
Os meus cumprimentos;
Fernando Dias
Alcoutim

Alien disse...

Caro Fernando Dias,

Muito obrigado pelo seu comentário, caso tenha alguma informação mais sobre a água mel ou assuntos relacionados com a apicultura tradicional, e as queira partilhar, este blog está à sua inteira disposição.

montedomel@gmail.com

Cumprimentos
Joaquim Pifano

Vivelinda Martins disse...

Sou do Concelho de Castro Marim e os meus pais sempre tiveram cortiços com abelhas e a minha mãe todos os anos fazia a famosa água mel. Lembro-me de ela pôr a secar cascas de laranja para depois fazer a famosa água mel. Como o meu marido também tem abelhas vou experimentar fazer pela primeira vez. Espero que fique pelo menos parecida com a que a minha mãe fazia. Obrigada pelas fotos, fazem-me recordar os tempos de criança...

Alien disse...

Srª Vivelinda Martins

Oxalá que corra tudo bem, tenho recebido inúmeras mensagens de pessoas ligadas à apicultura que pela primeira vez vão experimentar confeccionar esta iguaria, outras que há muito não o faziam e que vão uma vez mais ferver a água das ceras só pelas saudades do aroma e do sabor da água mel.

Bom trabalho!!!
Joaquim Pifano

Oceano Pacífico disse...

Muito boa reportagem...!!!
Parabéns pelo trabalho e pela divulgação desta delícia tradicional,
que ainda me recordo de apreciar quando era criança...

Josef Portugal disse...

Descobri há dias a água mel. è absolutamente deliciosa. Nenhuma compota, nenhum doce e nem mesmo o mel conseguem dar-me prazer igual. Barrada no pão alentejano e acompanhada com queijo de cabra, fresco ou de meia cura.
Por isso vim procurar e encontrei aqui como se faz. Algum trabalho e saber, mas que resultado final compensa e muito. É um verdadeiro néctar dos deuses.

xana disse...

Boa tarde! Obrigada pela excelente reportagem. Como não percebo nada disto, mas adoro água mel, será que me podem dizer qual a diferença entre água mel e Hidromel? Obrigada!

Alien disse...

Olá Xana,

A Água Mel, como viu na reportagem, obtém-se da fervura lenta da água resultante da lavagem das ceras após a extracção do mel, até se obter o ponto ideal para o efeito.
O produto resultante é um doce derivado do mel.
Já o Hidromel resulta da fermentação de uma mistura de mel e água, segundo diversos métodos e receitas e culmina na produção de uma bebida alcóolica.
O vinagre de mel passa por um processo semelhante ao do Hidromel, o tipo de fermentação é que é diferente.
Pessoalmente não domino nenhuma das técnicas...

Joaquim Pifano

Anónimo disse...

No Algarve tambem . Conheço quem faz aqui na minha casa nao falta agua mel. Ideal para bolos !

Margarida Valadas disse...

Eu gostei muito da reportagem e faço tambem só que não uzo mais nada alem da casca de laranja e canela era assim que o meu pai a fazia e tinha aprendido com os avós já veem de muito longe o gosto que o meu filho tem pela apicultura e como agua-mel o ano inteiro